Arton: Idade das Trevas



O Burburio do Salão estava maior do que o normal, fazia anos que o filho mais novo do regente tinha saído atrás de aventuras.

Toda a corte veio assistir este evento, murmúrios diziam que o príncipe tinha perdido um braço, outros que ele chegou a morrer e retornará, alguns, mais venenosos, sibilavam que a Tormenta e deixara louco.



O regente sabia que muitos ali procuravam motivos para rir do nome da família, mas todas as preocupações saíram da sua mente quando um servo entrou e murmurou no seu ouvido.
O silencio caiu sobre a corte e todos, instintivamente, olharam para a porta principal, os segundos tornaram-se eternos, até que a porta se abriu.

Um trapo humano entrou pela porta, caminhava com dificuldades e qualquer um que olhasse aquelas barbas grisalhos diria que era um homem com mais de 60 verões.
O velho caminhou até a mesa de banquete, sentou-se e comeu. Todos ainda o olhavam em silencio quando o regente falou:

- Filho, o que ouve com você?

-O que ouve? – As lágrimas começaram a correr pelos seus olhos. – Isto tudo é para isso?

- Vocês querem saber como é o mundo real? – o velho levantou e olhou para o regente- Eu vou contar “jovem”, e não serão histórias tão felizes quanto as dos bardos.
Ele já caminhava em direção ao regente com os olhos fixos.

-Eu caminhei da capital dos aventureiros até as colinas dos Hobbits, viajei no calor escaldante dos desertos e matei bestas nas terras bárbaras do Sul e em nenhum lugar existe felicidade.
O povo morre de fome e cede e isso é o menor dos problemas, Orcs, pragas, Goblins, linchs, dragões e deuses malignos espreitam em cada sombra. Enquanto nós, nobres, cantamos e romantizamos os seus problemas. O povo não é feliz, ele tem medo e o medo traz o ódio.

-E os aventureiros? – Uma donzela pergunta timidamente.

-Aventureiros? – Gargalhou o velho - Não passam de mercenários, eles passam pelas cidades e levam o pouco de ouro que a população tem, roubam os túmulos, matam quem entra no caminho deles, sequestram as “donzelas” e depois vão embora fingindo ser “heróis”. O Povo morre e eles gargalham nas tavernas enquanto dormem com raparigas cheias de fome e migalham esmolas para os bajuladores.

- Mas os deuses? – Murmurou um velho que estava em um canto.

-Os deuses existem, mas não fazem nada. Os clérigos são mesquinhos e avarentos, querem apenas as almas e dinheiro. Os poucos que acreditam serem bons, não passam de esquizofrênicos paranoicos que veem os deuses em tudo e mesmo esses estão apenas nas cidades muradas e cortes.
As estradas são negras, sangrentas e perigosas, os animais são brutais, as pessoas não ajudam ninguém, e no fim, nada se compara a Tormenta. Vocês não entendem, vocês nunca vão entender trancados nos seus castelos, não existe salvação, não existe para onde fugir, a morte é o menor dos problemas, você vê isso no olhar de cada cidadão deste reino, do império ou de qualquer lugar.
Bebam seus vinhos, festejem e continuem escrevendo seus livros de histórias romantizadas, não contem a verdade, porque... nada importa mesmo.

Nada importa, nada importa.... – E balbuciando isso o velho sai do salão.

Os nobres tiveram o que queriam, no dia seguinte ninguém lembrava da história do Velho príncipe, ele era apenas um louco, os bardos continuaram cantando suas musicas, os escribas escrevendo suas verdades e a corte continuava a festejar, mas fora das muralhas, tão longe que a vista não alcança, as nuvens rubras se moviam...

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